O conto da Aia: Uma reflexão super atual

por Vanessa Harlos



Imagine você ser mulher, fértil, capaz de gerar um filho (a) se essa for sua vontade, ter um emprego, pagar suas contas, ser independente e, de uma hora pra outra, ter tudo tirado de si e tornar-se propriedade do governo. Imaginou? Pois bem, essa é só uma provinha do conteúdo das mais de 350 páginas do romance distópico O Conto da Aia, obra da autora canadense Margaret Atwood.

Escrito em 1985, o livro voltou a ser destaque nas prateleiras das livrarias e lojas virtuais após o grande sucesso da série “The Handmaid’s Tale”, produção do canal de streaming Hulu, cuja narrativa é inspirada na obra de Atwood. No livro, a personagem June (na pele de Offred) é quem narra a história por meio de sua experiência enquanto aia, vivendo na República de Gilead (antigo EUA), depois que o país passou a ser governado por radicais cristãos, responsáveis por promover uma revolução teocrática na sociedade americana.

Calcados sob as interpretações do Velho Testamento bíblico, os novos governantes de Gilead passam a excluir as mulheres da sociedade, banem seus direitos e as transformam em verdadeiras propriedades. Assim, as mulheres são dividas em castas: as Esposas vestem verde e administram o lar; as Marthas atuam como empregadas, dando conta dos serviços domésticos; as Tias são senhoras responsáveis pela educação das aias, que servem e são submissas.

Sob a ótica de June / Offred, os leitores conseguem ter noção de como era a vida antes e como ela passou a ser após o golpe que o governo americano sofreu. Entre os horrores da nova era, da rotina tensa e surreal, Margaret Atwood, por meio da então aia e personagem principal do livro, faz um alerta para como a narrativa de O Conto da Aia traz situações muito atuais, mesmo tendo sido escrito nos anos 80.

Revolução Islâmica de 1979, perseguições políticas, assassinatos, opressão, radicalismo, violência contra a mulher, feminicídio e estupro são alguns dos pontos mostrados no livro e que são facilmente identificados nos dias atuais. Como já lido em inúmeras resenhas, o que torna O Conto da Aia, tanto livro quanto série, tão fascinante e, ao mesmo tempo, amedrontador, é o fato de o quão real essa história se mostra. As atrocidades sucedidas em Gilead são, em suma, as mesmas noticiadas nos quatro cantos do mundo, com cada vez mais intensidade e frequência.


Sobre a autora: De origem canadense, além de escritora, Margaret Atwood é também romancista, poetisa, ensaísta e contista, agraciada com prêmios literários internacionais importantes (Arthur C. Clarke Award, Prince of Asturias, Booker Prize). Recebeu a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país além de ter sido indicada várias vezes para o Booker Prize – vencedora no ano 2000, com o romance O Assassino Cego. Outros romances de sua autoria são Olho de Gato (Cat’s Eye, 1988) e Oryx & Crake (2003). Como características principais de sua obra, estão a ironia e a ludicidade, mescladas à uma aguçada perspicácia para questões contemporâneas – como as relações de gênero e o meio ambiente.

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